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  • VINICIUS VITAL

Rio de Janeiro está entre os dois estados com maior queda na taxa de vacinação geral do Brasil

POR JORGE COSTA*

A queda nas taxas de vacinação das doenças tradicionais ocorreram em todo o país, mas o Estado do Rio de Janeiro foi uma das unidades da federação com a redução mais acentuada Rafael Barreto / PMBR

Rio - O Estado do Rio de Janeiro registrou, em conjunto com o Amapá, a maior queda na taxa de vacinação do país em 2020, segundo um estudo publicado no último mês pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). A Secretaria de Estado de Saúde disponibilizou, a pedido de O DIA, as taxas de cobertura de oito vacinas, registrando uma nova redução na aplicação de todos os imunizantes neste ano. O Ministério da Saúde foi procurado para responder aos questionamentos sobre os valores investidos e estratégias implementadas para promover a vacinação tradicional, mas não respondeu até a finalização da reportagem.

A queda na cobertura vacinal ocorre de maneira gradativa desde 2015 e sofreu um impacto ainda maior durante o ano de 2020 por conta da pandemia. Especialistas apontam que há um risco considerável de retorno de doenças que foram controladas ou extintas, e ressaltam a importância de conscientizar a população sobre a vacinação, tanto para a covid-19 quanto as demais enfermidades. (Ao final da reportagem, uma lista com a cobertura vacinal de 9 imunizantes mostra a queda no Estado do Rio nos últimos 6 anos)


A meta de aplicação dos imunizantes tradicionais é de 90% de cobertura segundo as normas do PNI. Contudo, no estado do Rio, o índice de vacinação com a BGC (Bacilo de Calmette e Guérin), que existe desde 1921 e previne a tuberculose pulmonar, atingiu a segunda menor cobertura do Brasil em 2020, e as taxas de 2021 tiveram uma queda ainda mais acentuada. Neste momento, o percentual do público protegido é de 48,7%. Além do estado fluminense, houve pioras registradas em todas as unidades federativas do país.


As coberturas de vacinação no estado do Rio de Janeiro com os imunizantes de Pneumocócica (que protege contra pneumonia, meningite e otite), Hepatite B, Meningococo C (que causa meningite) e Rotavírus (que causa diarreia grave, febre e vômitos) tiveram a pior cobertura vacinal do país em 2020, com piora acentuada em 2021, atingindo: 48,2% (Pneumocócica), 47,1% (Meningococo C), e 46,4% (Rotavírus), não há informações sobre a cobertura da Hepatite B em 2021, mas o percentual do ano anterior foi de 40,1%, todos distantes da meta de 90% estabelecidos pelo PNI.


No total, 19 imunobiológicos de rotina são oferecidos no calendário de vacinação, que inclui crianças, adolescentes, adultos, idosos e gestantes, além das vacinas oferecidas em campanhas para grupos específicos. A responsabilidade pela distribuição das doses é das prefeituras e os imunizantes são aplicados nos postos de saúde municipais.

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) informou que as vacinas disponíveis no calendário do Ministério da Saúde para crianças com até quatro anos de idade são: BCG, Hepatite B, Rotavírus, Poliomielite, Meningocócica C Conjugada, Pneumocócica 10 valente, Pentavalente, Febre amarela, tríplice viral, Hepatite A, DTP e varicela.


Para adolescentes, são disponibilizadas as vacinas contra o HPV e a meningocócica ACWY. Já os adultos tomam doses contra difteria e tétano adulto (dT), e Hepatite B, quando necessário. Os idosos dispõem da vacina contra influenza (gripe) e pneumocócica 23 valente nas campanhas. Para gestantes, o governo federal disponibiliza a dTpa, responsável pela proteção contra coqueluche, difteria e tétano.

Para fins de cálculo, segundo a SES, o Ministério da Saúde considera apenas as vacinas administradas em menores de 2 anos. Acima dessa idade, os imunizantes possuem esquemas específicos de complementação com esforços, não permitindo gerar taxas de coberturas adequadas.


Em relação à queda provocada pela pandemia, a secretaria confirmou que tem se observado uma redução na procura pelos imunizantes, e que, através das áreas técnicas, tem realizado capacitações e treinamentos com as equipes de vigilância e atenção primária, assim como orientando o desenvolvimento de estratégias fora das unidades de saúde (em locais seguros), visando fortalecer as ações do PNI.

Há um risco iminente provocado pela baixa cobertura de vacinação. O estado do Amapá registrou, em abril deste ano, um surto de sarampo com a notificação de 557 casos suspeitos e 235 confirmados. Todo o continente americano havia sido declarado livre da doença em 2016. Não foram registrados óbitos com o último surto, segundo o Boletim Epidemiológico da semana 9 divulgado pelo Ministério da Saúde em março. Especialistas alertam sobre riscos


De acordo com o infectologista e secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo, Daniel Jarovsky, a diminuição das coberturas de vacinação tradicionais no Brasil oferece um risco considerável do retorno de doenças que já estavam controladas ou eliminadas.

Entre os principais motivos para a redução da cobertura de vacinação no país, ele destacou o impacto negativo provocado pela pandemia, que diminuiu a frequência de ida da população aos postos de saúde, em conjunto com uma menor divulgação midiática das campanhas tradicionais.


"O impacto da pandemia nas taxas das coberturas vacinais foi realmente muito importante, as coberturas como nós vimos no ano de 2020 foram as menores taxas nos últimos 20 ou 25 anos no país e também em âmbito mais global por conta da pandemia. Nos preocupa que a 'não vacinação' com os imunizantes de rotina podem abrir portas para o retorno de doenças já eliminadas no país. É um risco deixar de vacinar por medo de morrer de covid-19 e em contrapartida a mesma pessoa se arriscar e morrer com outras infecções", explicou.

Para Daniel, o maior desafio do momento que o governo e a sociedade devem enfrentar é como estimular a vacinação de maneira segura para que todas as doenças sejam combatidas junto com a covid-19. Ele citou que diversos municípios em diferentes estados dividiram os espaços, disponibilizando os postos de saúde para oferecer os imunizantes contra a covid-19 e realizando a campanha tradicional em escolas. Ele explicou que a medida diminuiu aglomerações e teve caráter simbólico positivo.


"Uma coisa que eu achei muito positiva que fizeram esse ano, e não vimos com muita frequência nos últimos, foi vacinação em escolas. Alguns municípios concentraram os postos de vacinação para a covid-19 e aproveitaram as unidades de ensino que não estavam abertas para fazer a campanha contra as outras doenças nos espaços. É uma alternativa muito interessante até mesmo pela imagem que temos da escola, como algo positivo, tem um vínculo educativo e simbólico. Eu acredito que todos enxergam este espaço como um lugar diferente e especial", afirmou.

A diretora médica da Sanofi Pasteur, Sheila Homsani, destacou a importância da vacina contra todas as doenças como um dos mecanismos de proteção preventiva mais eficientes e com forte impacto na saúde pública. Ela lembrou que a vacinação contra a gripe ainda segue sendo feita no país e que a falta de cobertura contra a doença atinge patamares preocupantes.


"Além da pandemia de covid-19 que afetou milhares de famílias, temos a preocupação com a baixa cobertura vacinal de outras doenças preveníveis. Esta tendência não é recente, mas foi acentuada com a chegada da pandemia. Para se ter uma ideia, neste ano, mais de 70% dos primeiros grupos prioritários ainda não se imunizaram contra a gripe no Brasil, o que é bastante preocupante, principalmente para as crianças, pois as baixas taxas de cobertura refletem um risco para toda a família, uma vez que este público transmite o vírus da influenza com maior facilidade que os adultos e o contágio pode se estender por até dez dias", afirmou.

A especialista destacou que o país não atingiu nenhuma de suas metas de vacinação infantil, e a situação oferece um alerta a respeito do retorno ou aumento de casos de outras doenças graves, que poderiam ser evitadas por meio das campanhas de imunização, como a poliomielite e a meningite.


"Muitas vezes o próprio fato de as doenças terem sido eliminadas no país, como é o caso da poliomielite, faz com que a população tenha uma falsa percepção de que a vacinação não é necessária. E, nesses casos, a baixa cobertura vacinal representa um grande risco. Acompanhamos, por exemplo, o retorno do sarampo em 2018, doença que estava eliminada desde 2016 e, um dos motivos, foi justamente a diminuição na cobertura vacinal", finalizou.

Taxa de vacinação no Estado do Rio de Janeiro Poliomielite - 100.0% | 89.9% | 88.8% | 87.5% | 73.6% | 54.8% | 47.16% (2015 até 2021) Tríplice Viral - 100.0% | 100.0% | 94.3% | 99.7% | 96.6% | 59.6% | 51.82% (2015 até 2021) BCG - 100.0% | 106.2% | 115.3% | 105.7% | 79.6% | 60.4%| 48.07% (2015 até 2021) Hepatite B - 87.7% | 85.8% | 94.7% | 81.9% | 50.8% | 40.1% (2015 até 2020) Hepatite A - 99.7% | 77.9% | 85.4% | 81.6% | 77.7% | 52.6 | 45.3% (2015 até 2021) Pneumocócica - 94.1% | 100.0% | 97.2% | 94.1% | 78.4% | 59.5% | 48.2% (2015 até 2021) Meningococo C - 100.0% | 98.3% | 91.3% | 87.9% | 76.8% | 56.3% | 47.1% (2015 até 2021) Rotavírus Humano - 98.9% | 93.7% | 83.5% | 89.7% | 75.0% | 56.4% | 46.45% (2015 até 2021) Pentavalente- 99.3% | 96.7% | 93.5% | 88.2% | 55.2% | 55.1% | 47.5% (2015 até 2021)

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*Estagiário sob supervisão de Thiago Antunes

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